Cidade NossaCidade Nossa: Sobre ser escura e ser Clara
REV-3011-CRONICA - (crédito: maurenilson)
Clara Marinho — especial para o Correio
"Como você pode se chamar Clara, se é escura?". Essa frase e suas variantes são tão antigas em minha vida que nem sei dizer quando comecei a escutá-las. Na escola primária privada — localizada num bairro majoritariamente branco da orla de Salvador —, ela tomou uma forma mais contundente: "carvão mineral" e "bombril" foram os apelidos que me acompanharam entre os 8 e 10 anos. O racismo recreativo era tão normalizado que não me recordo de ouvir qualquer repreensão das professoras por ser chamada dessa forma, de expressar raiva pública, ou de minha mãe queixar-se à direção. A mensagem silenciosa era a de que aquilo fazia parte do cotidiano. Mas, pelo menos da parte da minha mãe, não posso afirmar que não houve uma reação: "Seja a melhor", ouvi desde cedo.
Fonte original: abrir