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'Estado hipnagógico': o momento entre sono e vigília que pode nos ajudar a ser mais criativos

02/01/2026 05:03 G1 — Brasil

Especialistas afirmam que, nesse estado entre o sono e a vigília, os seres humanos tendem a criar e encontrar soluções inovadoras para problemas
Getty Images
A canção Yesterday, dos Beatles, foi escrita no que psicólogos chamam de "estado hipnagógico". Essa é uma zona cinzenta entre o sono e a vigília, quando ficamos meio sonolentos em um estado semiconsciente, experimentando imagens e sons mentais vívidos.
Ao acordar em uma manhã do início de 1965, Paul McCartney percebeu uma melodia longa e complexa tocando em sua cabeça. Saltou da cama, sentou-se ao piano e começou a tocá-la.
Ele rapidamente encontrou os acordes que acompanhavam a melodia e rascunhou algumas frases de acompanhamento (como as chamam os compositores, antes de escrever a letra propriamente dita) que se encaixavam com a música.
Custando a acreditar que um som tão bonito poderia surgir espontaneamente, McCartney suspeitou que estivesse plagiando inconscientemente outra composição.
"Durante aproximadamente um mês, procurei pessoas do meio musical e perguntei se já tinham a ouvido antes... Pensei que, se ninguém a reivindicasse depois de algumas semanas, poderia ficar com ela", relembrou. Mas era mesmo original.
Muitas grandes descobertas e invenções surgiram durante o estado hipnagógico.
O físico Niels Bohr ganhou o Prêmio Nobel porque, estando semiconsciente, sonhou que via o núcleo do átomo, com elétrons girando ao redor, tal como o sistema solar com o Sol e os planetas, e assim "descobriu" a estrutura atômica.
O cantor britânico Paul McCartney afirmou que o sucesso Yesterday surgiu enquanto ele despertava certa manhã
Ricardo Rubio/Europa Press via Getty Images
O ponto ótimo
Pesquisas demonstraram que o estado hipnagógico é um "ponto ótimo" para a criatividade. Por exemplo, em um estudo de 2021, participantes em estado hipnagógico tiveram três vezes mais chances de descobrir a "regra oculta" capaz de solucionar um problema matemático.
Os psicólogos associam a criatividade a qualidades como abertura à experiência e flexibilidade cognitiva.
Outros sugerem que a criatividade surge da coordenação entre a rede de controle cognitivo do cérebro (responsável pelo planejamento e resolução de problemas) e a rede do modo padrão (associada ao devaneio e à divagação mental).
No entanto, na minha opinião, uma das teorias mais importantes sobre a criatividade é também uma das mais antigas, proposta pelo psicólogo britânico Frederic Myers, em 1881. Segundo Myers, ideias e percepções surgem como uma súbita "onda" da mente subliminar.
Para Myers, nossa mente consciente é apenas um pequeno segmento de nossa mente como um todo, incluindo não apenas o que Sigmund Freud chamou de inconsciente, mas também níveis de consciência mais amplos e elevados. As ideias podem ser gestadas inconscientemente por um longo tempo antes de emergirem à consciência.
É por isso que muitas vezes sentimos que as ideias vêm de fora da mente, como se nos fossem dadas. Elas podem vir de além da nossa mente consciente.
Especialistas afirmam que uma soneca ou um momento de relaxamento não representam perda de tempo, mas um caminho para estimular a criatividade
Getty Images
A importância do relaxamento
O estado hipnagógico é tão criativo porque, enquanto oscilamos entre o sono e a vigília, a mente consciente está apenas ativa.
Por um breve período, nossos limites mentais ficam mais permeáveis, e percepções e ideias criativas podem fluir da mente subconsciente.
Em sentido mais geral, é por isso que a criatividade é frequentemente associada ao relaxamento e ao ócio. Quando relaxamos, nossa mente consciente tende a ficar menos ativa. Muitas vezes, quando estamos ocupados, nossa mente está repleta de pensamentos incessantes, sem espaço para que ideias criativas fluam.
É por isso também que a meditação está fortemente ligada à criatividade.
Pesquisas mostram que a meditação promove qualidades criativas gerais, como abertura à experiência e flexibilidade cognitiva.
Mas talvez ainda mais importante, a meditação silencia e suaviza a mente consciente, nos tornando mais suscetíveis a receber inspiração de fora dela.
Como destaco em meu livro The Leap (O Salto, em tradução livre), é por isso que existe uma forte conexão entre o despertar espiritual e a criatividade.
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Alimentando o estado hipnagógico
Pesquisas indicam que cerca de 80% das pessoas já experimentaram o estado hipnagógico e que aproximadamente um quarto da população vivencia com regularidade. É ligeiramente mais comum em mulheres do que em homens.
Esse estado tende a ocorrer no início do sono, mas também pode surgir ao despertar ou ao longo do dia, quando sentimos sono e a consciência começa a se apagar.
Podemos usar o estado hipnagógico para potencializar nossa criatividade? Certamente é possível permanecer nele, como muitos sabem, especialmente nas noites de domingo.
No entanto, um dos desafios é capturar as ideias que surgem. Nesse torpor, pode faltar o impulso de regis

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