Internet, loteria, jogo do bicho e até água de coco: facções criminosas tentam expandir ‘negócios’ no Ceará
Internet, loteria e até água de coco: facções criminosas tentam expandir ‘negócios’ no CE
Serviços de internet, jogo do bicho, loterias, cigarros e bebidas falsificados, setor de combustíveis, golpes virtuais, jogos regulamentados (bets), “taxa de funcionamento” para comércios e tráfico de drogas.
O g1 teve acesso a documentos que mostram como as facções criminosas no Ceará têm expandido as áreas de atuação para ampliar suas receitas – muitas vezes, isso ocorre por meio da violência contra moradores e da disputa territorial com outros grupos, resultando em conflitos armados e famílias expulsas de casa.
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Somente em 2025, foram revelados diversos episódios em que facções buscaram lucrar com o comércio de itens diversos no Ceará. Em agosto, os criminosos tentaram impor controle até sobre a venda de água de coco na avenida Beira Mar, o principal ponto turístico de Fortaleza.
Especialistas apontam que a “diversificação” dos negócios é uma forma de reduzir a dependência do tráfico de drogas como fonte de renda, muitas vezes afetada por apreensões policiais.
A dinâmica financeira dos criminosos influencia diretamente a estrutura e até a sobrevivência dos grupos. A perda de territórios da facção cearense Guardiões do Estado (GDE) para o Comando Vermelho (CV) levou o grupo local a uma espécie de crise financeira.
O cenário difícil acabou precipitando a fusão dos cearenses com o Terceiro Comando Puro (TCP), rival do CV no Rio de Janeiro. Desde setembro, já há diversos relatos da atuação do TCP no estado, não só no tráfico de drogas, mas também mirando outros negócios, como o monopólio das apostas de loteria.
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Entenda a seguir:
Por que ‘diversificar’ os negócios?
O envolvimento das facções no Ceará não se limita a atividades de grande alcance, como o fornecimento de internet. Casos recentes mostram como os criminosos têm tentado influenciar vários aspectos do cotidiano e dos negócios no estado.
Em agosto, criminosos do Comando Vermelho (CV) tentaram controlar a venda de água de coco e outros produtos na Avenida Beira-Mar, principal ponto turístico de Fortaleza. Eles criaram um grupo de WhatsApp, chamado "Grupo das Bebidas", e forçaram todos os ambulantes a participar.
Criminosos ameaçam vendedores na Beira-Mar.
Reprodução
No aplicativo, os suspeitos davam ordens e, sob ameaça de morte, exigiam que todos os ambulantes da Beira Mar comprassem produtos de um depósito da própria facção.
O professor Fillipe Azevedo Rodrigues, coordenador do Grupo de Pesquisa em Direito e Economia do Crime da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), explica que a “diversificação” dos negócios é uma forma dos criminosos aumentarem os lucros com outras fontes de renda além do tráfico de drogas e armas.
“Quando a gente, por exemplo, decide pegar um dinheiro que nós poupamos e decide onde a gente vai investir, a primeira coisa que é dita é, se alguém for lhe aconselhar bem, 'diversifique seus investimentos, não coloque todo o seu capital, toda a sua capacidade de trabalho em uma coisa só'. E as organizações criminosas seguem essa mesma tendência”, explica.
Os criminosos viram no modelo das milícias do Rio de Janeiro uma oportunidade de explorar outras fontes de captação da renda, sempre buscando o monopólio, que garante o controle do fornecimento e dos preços.
“O tráfico se apropriou também desse modus operandi e começou a dominar áreas e até impediu o acesso a serviços públicos. E começou a ver que isso era muito lucrativo, porque você cria, querendo ou não, uma sociedade paralela, um Estado paralelo e essencialmente monopolista. O crime organizado, para prosperar, ele precisa operar em monopólios. Então, ele se torna isso, ele impõe isso à sociedade", explica.
Monopólio da internet
No início de 2025, ataques ordenados pelo Comando Vermelho afetaram o fornecimento de internet em pelo menos quatro cidades do Ceará: Fortaleza, Caucaia, São Gonçalo do Amarante e Caridade, no interior do estado. Em Caridade, a queda na conexão atingiu 90% dos clientes.
Os ataques começaram na região do Grande Pirambu, em Fortaleza, em fevereiro, quando dois veículos da empresa Brisanet foram queimados. A partir daí, os criminosos queimaram mais carros, cortaram cabos de internet, quebraram servidores e enviaram ameaças. Algumas provedoras fecharam permanentemente.
Investigação do Ministério Público do Ceará apontou que os ataques foram ordenados por membros do Comando Vermelho escondidos no Rio de Janeiro. A ação foi em represália à negativa dos empresários em atender as exigências da facção, entre elas, o pagamento mensal de uma taxa de R$ 20 por cada cliente.
Criminosos invadiram estabelecimen
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